domingo, 28 de março de 2010

Cassiano Ricardo

Poética

1
Que é a poesia?
       uma ilha 
      cercada 
  de palavras
         por todos 
       os lados.

Que é o Poeta?
             um homem
         que trabalha o poema
              com o suor do seu rosto.
            Um homem
        que tem fome
  como qualquer outro
homem.

Cassiano Ricardo
Jeremias Sem-Chorar

domingo, 21 de março de 2010

Emily Dickinson





Hora em que chamarem de louca

Muita loucura é sabedoria divina
Para um olho inteligente.
Muita sabedoria, pura loucura.
Mas, como sempre,
A  maioria domina:
Se você concorda, é boa gente.
Se nega, um perigoso sem cura.
Melhor prender com corrente.
Emily Dickinson
Tradução de Ângela-Lago em O livro das horas


sábado, 20 de março de 2010

Mário de Andrade




Lundu do escritor difícil

Eu sou um escritor difícil
Que a muita gente enquizila,
Porém essa culpa é fácil
De se acabar duma vez:
É só tirar a cortina
Que entra luz nesta escurez.

Cortina de brim caipora,

Com teia caranguejeira
E enfeite ruim de caipira,
Fale fala brasileira
Que você enxerga bonito
Tanta luz nesta capoeira
Tal-e-qual numa gupiara.

Misturo tudo num saco,

Mas gaúcho maranhense
Que pára no Mato Grosso,
Bate este angu de caroço
Ver sopa de caruru;
A vida é mesmo um buraco,
Bobo é quem não é tatu!


Eu sou um escritor difícil,
Porém culpa de quem é!...
Todo difícil é fácil,
Abasta a gente saber.
Bajé, pixé, chué, ôh "xavié"
De tão fácil virou fóssil,
O difícil é aprender!

Virtude de urubutinga

De enxergar tudo de longe!
Não carece vestir tanga
Pra penetrar meu caçanje!
Você sabe o francês "singe"
Mas não sabe o que é guariba?
— Pois é macaco, seu mano,
Que só sabe o que é da estranja.

Mário de Andrade

quarta-feira, 17 de março de 2010

João Cabral de Melo Neto

Tecendo a Manhã 
1. 
Um galo sozinho não tece uma manhã: 
ele precisará sempre de outros galos. 

De um que apanhe esse grito que ele 
e o lance a outro; de um outro galo 
que apanhe o grito de um galo antes 
e o lance a outro; e de outros galos 
que com muitos outros galos se cruzem 
os fios de sol de seus gritos de galo, 
para que a manhã, desde uma teia tênue, 
se vá tecendo, entre todos os galos. 
  

2. 
E se encorpando em tela, entre todos, 
se erguendo tenda, onde entrem todos, 
se entretendendo para todos, no toldo 
(a manhã) que plana livre de armação. 

A manhã, toldo de um tecido tão aéreo 
que, tecido, se eleva por si: luz balão.

João Cabral de Melo Neto
A Educação pela Pedra