quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012
Palavras ao Vento
Palavras ao Vento, uma composição de Marisa Monte e Moraes Moreira, interpretada pela inesquecível Cássia Eller.
terça-feira, 13 de julho de 2010
Pablo Neruda
As uvas e o vento
Pablo Neruda
...Tu perguntas o que a lagosta tece
Lá embaixo...
Com seus pés dourados.
Respondo que o oceano sabe.
E por quem a medusa espera,
em sua veste transparente?
Está esperando pelo
tempo, como tu.
Quem as algas apertam
Em seu abraço... perguntas...
Mais firme que uma hora e
Um mar certos? Eu sei.
Perguntas sobre a mesa
Branca do narval...
E eu respondo cantando como
Unicórnio do mar, arpoado, morre.
Perguntas sobre as plumas do rei
Pescador...
Que vibrou nas puras
Primaveras dos mares do sul.
Quero te contar que o oceano
Sabe isto: que a vida...
Em seus estojos de jóias,
É infinita como areia,
Incontável, pura; e o tempo,
Entre as uvas cor-de-sangue...
Tornou a pedra dura e lisa,
Encheu a água-viva de luz...
Desfez o seu nó, soltou
Seus fios musicais...
De uma cornucópia feia
De infinita madrepérola.
Sou só a rede vazia diante dos
Olhos humanos na escuridão...
E de dedos habituados à longitude
Do tímido globo de uma laranja.
Caminho, como tu, investigando
A estrela sem fim...
E em minha rede, durante
A noite, acordo nu.
A única coisa capturada
É um peixe...
Preso dentro do vento
Investigando a estrela sem fim...
domingo, 9 de maio de 2010
quarta-feira, 21 de abril de 2010
Romanceiro da Inconfidência
Edusp : Imprensa Oficial, 2004
De Cecília Meireles
Romanceiro da Inconfidência
Romance LIII ou Das palavras aéreas
Ai, palavras, ai, palavras,
Que estranha potência a vossa!
Ai, palavras, ai, palavras,
Sois de vento, ides no vento,
No vento que não retorna,
E, em tão rápida existência,
Tudo se forma e transforma!
Sois de vento, ides no vento,
E quedais, com sorte nova!
Ai, palavras, ai, palavras,
Que estranha potência a vossa!
Todo o sentido da vida
Principia à vossa porta;
O mel do amor cristaliza
Seu perfume em vossa rosa;
Sois o sonho e sois a audácia, calúnia, fúria, derrota...
A liberdade das almas.
Ai! Com letras se elabora...
E dos venenos humanos
Sois a mais fina retorta:
Frágil, frágil como o vidro
E mais que o aço poderosa!
Reis, impérios, povos, tempos,
Pelo vosso impulso rodam...
(...)
Detrás de grossas paredes,
De leve, quem vos desfolha?
Pareceis de tênue seda
Sem peso de ação nem de hora...
_ e estás no bico das penas,
_ e estais na tinta que se molha,
_ e estais nas mãos dos juízes,
_ e sois o ferro que arrocha,
_ e sois barco para o exílio,
_ e sois Moçambique e Angola!
(...)
Ai, palavras, ai, palavras,
Mirai-vos: que sois agora?
(...)
Ai, palavras, ai, palavras,
Que estranha potência, a vossa!
Éreis um sopro de aragem...
_ sois um homem que se enforca!
Fonte: A Mulher na Literatura
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